O que acontece quando o diagnóstico chega?
O primeiro efeito costuma não ser tristeza, e sim irrealidade. A pessoa ouve o diagnóstico e continua funcionando: avisa a família, marca exames, organiza a casa. Semanas depois, quando a agenda de tratamento já está montada, o susto chega.
Esse atraso é comum e não é negação no sentido pejorativo. É o organismo dando conta de uma informação grande demais no ritmo que consegue.
Na estimativa do Instituto Nacional de Câncer para o triênio de 2023 a 2025, o câncer de mama é o de maior incidência entre mulheres no Brasil, excluídos os casos de pele não melanoma. É um percurso que muitas atravessam, e que a maioria atravessa sem espaço para falar do que sente.
Por que é tão difícil falar do corpo depois da cirurgia?
Porque o que foi alterado não é um órgão qualquer. A mama carrega marcas de identidade, de maternidade e de sexualidade que ninguém escolheu que ela carregasse, e que não somem porque a cirurgia era necessária.
Muitas mulheres relatam culpa por sofrer com a aparência quando "o importante era salvar a vida". As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e a segunda não anula a primeira.
Perda de cabelo, alteração de peso, menopausa induzida por tratamento e mudança na libido entram na mesma conta. São efeitos reais, e raramente encontram lugar na conversa com a família, que quer ouvir que está tudo bem.
Por que o fim do tratamento pode ser a fase mais difícil?
Porque todo mundo em volta comemora, e a pessoa não consegue. Durante o tratamento havia uma rotina, uma equipe, um objetivo claro e a sensação de estar fazendo algo. Quando isso acaba, sobra o silêncio e o medo de que volte.
Somam-se a cobrança de retomar a vida anterior, a percepção de que o corpo não é mais o mesmo, e a solidão de perceber que a rede de apoio se dispersou justo agora.
É frequente a procura por atendimento psicológico começar meses depois da alta, com a pessoa dizendo que não entende por que está pior agora do que estava no meio da quimioterapia. Faz sentido, e tem explicação.
E quem está em volta?
Companheiros, filhos, irmãs e mães também adoecem no processo, e quase nunca se dão o direito de dizer isso. Existe uma página deste site dedicada a quem cuida.
Nas famílias em que ninguém fala para não preocupar o outro, todos ficam sozinhos ao mesmo tempo, cada um protegendo os demais de uma informação que todos já têm.
Em que momento procurar apoio psicológico?
Em qualquer um. Não é preciso estar em colapso, e não é preciso esperar o tratamento terminar. Procurar no início costuma facilitar o restante do percurso, mas procurar depois nunca é tarde.
Maria Socorro de Menezes, psicóloga, atende pessoas em tratamento oncológico e seus familiares, online e presencialmente.
Atendimento psicológico não é serviço de emergência. Em situação de risco à vida, ligue para o CVV no 188, para o SAMU no 192 ou procure o CAPS ou a UPA mais próxima.
Revisado por Maria Socorro de Menezes, psicóloga. Ver formação e atuação.